03 abril 2011

A MOÇA E O VENTO
O vento bateu a mão no rosto da moça, ordenando que cerrasse os olhos. Obediente, ela parou no meio da rua e a rua desapareceu para ela. Agora tudo o que existia era ela, o vento e o que o vento lhe dizia.

O povo que ali passava a caminho da missa, a encarava com o rabo do olho, criticando aos sussurros seu comportamento inadequado. Ela nem se deu conta; o vento falava muito alto.

Os que presenciaram o ocorrido contaram aos ausentes e logo a moça já não tinha nome; era a garota louca parada no meio da Rua Sete. Ela tentou falar sobre o vento, mas enquanto falava, os ouvintes ocupavam seus cérebros com suas próprias certezas.

Um dia, cansada da solidão, aceitou a condição de louca. A princípio era só fingimento, mas com o tempo, tornou-se incapaz de ouvir seus próprios pensamentos.

Ela nem se deu conta; as pessoas falavam muito alto.

Julieta

1 comentários:

  1. Estranho que esse me fez pensar que, quando achamos algo muito bom ou belo p/ nós e tentamos passar isso p/ "outros", eles não ouvem ou, quando fingem que ouvem, não conseguem ter tato suficiente p/ acariciar a lembrança. Acabam lembrando de outras coisas que aconteceram com eles e, seus próprios pensamentos falam mais alto que as nossas lembranças e não nos ouvem mais.

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